terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

QUANTAS VEZES A RAIVA TE CEGA?




Eu tinha lá meus 15, 16 anos... Conheci um rapaz show de bola!! Logo de cara a conversa fluiu. Descobrimos que estávamos lendo o mesmo livro, tínhamos os mesmos gostos musicais, literários, objetivos acadêmicos, profissionais, professávamos a mesma fé e ainda descobrimos que nascemos no mesmo dia! Foi tipo: ALMA GÊMEA!! O interesse foi mútuo de ambas as partes, no entanto, o meu momento não era de romance. Meu momento era delicado, de preocupação com família, saúde, dinheiro... Feliz ou infelizmente, não sei, eu ainda não sabia administrar a vida em seus diversos setores adultos.


Embora apreciasse muito a companhia do colega, e a pressão dos amigos em prol do “aceita!!”, ao pedido de namoro e declarações, definitivamente, a minha resposta era não. Foi quando uma amiga me chamou num canto, dizendo que tinha conversado com o rapaz, e que ele havia cogitado a ideia de que eu só não aceitava porque ele era negro. Pois nessa hora eu me senti mais pálida do que já sou, em seguida, avermelhei de raiva. E eu chorei algumas vezes por causa disso.


“Oi? Quer dizer que é assim? Que por que a minha resposta foi não, o bonito tá por aí me taxando de racista?! Que raiva! Que ódio!! Que mal caratismo...”. Praticamente rompi com a amizade. Passei a me distanciar e tratar com certa frieza, mantendo o mínimo de educação exigido pela sociedade. E toda vez que pensava na crueldade daquele comentário, me sentia injustiçada, acusada de algo que nunca fui; traída, afinal, o cara que antes parecia tão legal, estava agora compartilhando uma ideia muito cruel sobre mim. Decepção traduzia bem.


Passaram-se alguns anos e, um dia, pensando na vida, lembrei do ocorrido. Como de todas as vezes, senti raiva, tristeza, ódio... (Como alguém podia ser tão cruel e egoísta? Só porque eu disse não, tinha que jogar lama em mim?). Foi quando veio a pergunta reversa, que mesmo contrariada, eu tive que me fazer: “e ele? Será que não sofreu ao pensar que o motivo era a diferença da cor da pele?”


Foi quando , pela primeira vez neste caso, eu me importei com o que o outro sentiu, e não com a veracidade dos fatos. E me doeu pensar que alguém poderia explicitamente gostar de mim e mesmo assim me negar apenas por causa da cor da minha pele.

Parei de me importar comigo mesma e decidi que ele devia saber claramente os meus motivos – mesmo com tantos anos já passados. Inclusive, pensei eu, “vou contar que soube o que ele andou falando” (pra mostrar que eu sou a sabichona e que ele não me engana mais!). E assim eu fiz. Minha surpresa foi descobrir que ele sabia perfeitamente quais eram os meus porquês (família, saúde, dinheiro...), e antes que eu desse nome aos bois, ele me disse, que a Fulana X foi quem cogitou que talvez “o problema” fosse a cor da pele – sim, a mesma Fulana que me disse que o pensamento tinha partido dele.


COLOCAR - SE NO LUGAR DO OUTRO PODE IMPEDIR QUE VOCÊ CARREGUE SENTIMENTOS DESTRUTIVOS.


E aí, o camarada com quem eu levei tanto tempo magoada, não tinha nada a ver com a história; reafirmou que sabia do meu momento, por isso optou por não pressionar uma resposta positiva, que tinha entendido o meu afastamento como uma forma de diminuir o interrogatório da galera e que respeitou isso, que me conhecendo como conhecia, sabia que JAMAIS a cor da pele seria um motivo.


A lição que tiro disso tudo, (e são várias), é que somente quando a gente consegue se colocar no lugar do outro, a gente é capaz de ir em busca e encontrar a verdade. Que as vezes, a gente se deixa cegar pela raiva, pela decepção, e simplesmente, ignoramos que pode haver outra versão verdadeira para a mesma história.


FICA A REFLEXÃO:


COM QUE FREQUÊNCIA VOCÊ SE COLOCA NO LUGAR DO OUTRO?

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