quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O que sentem os filhos de pais separados?



Hoje, como profissional atuante na educação religiosa, social e moral de alguns adolescentes, me percebo envolvida com boa parte do que acontece com eles. Minha reação diante de algumas situações é primeiramente instintiva para só em seguida ser racional. Com isso, sou obrigada a refletir sobre fatos que antes eu ignorava ou não dedicava atenção.
           
Descreverei alguns episódios tentando explicar um pouco do que tenho acompanhado da vida dessa futura sociedade. Nosso grupo é formado por aproximadamente trinta adolescentes assíduos. Desses trinta, apenas seis têm o pai e a mãe legítimos casados e frequentando a mesma igreja. O restante, ou vai sozinho, ou com apenas um dos responsáveis. Onde quero chegar com essa informação? Simples! Quando se fala em pais separados, logo imaginamos a comum separação física, onde normalmente o homem/pai sai de casa e deixa os filhos com a mulher/mãe, ou ao contrário, que é menos comum. No entanto, quero seguir por partes...
           
Em uma determinada reunião falávamos sobre milagres, e pedimos que os adolescentes falassem sobre um milagre que gostariam de receber, ao que um deles respondeu que gostaria que seu pai voltasse para sua mãe. É claro que não esperávamos por isso! Fiquei estatelada, me sentindo uma cética mentirosa ousando falar sobre milagres... O que dizer? Ou melhor, como dizer a um rapazinho, que essa missão é inviável, uma vez que o pai já constituiu outra família, tal qual a mãe que tem outro parceiro?! Pelo que sei, o padrasto dá atenção, carinho, tempo e dinheiro, ainda assim, o menino quer a presença do pai, pelo qual também nutre uma mágoa publicamente notória, não só pelo pai, mas também da mãe.
           
A mágoa é porque apesar de conscientemente ‘saber das coisas’, a emoção irracional diz que se o pai realmente o amasse, teria suportado tudo para estar ao lado dele, o mesmo vale para a mãe, que se o amasse tanto, teria suportado o pai! É uma ferida narcísica hiper profunda, é descobrir da pior maneira, que não se é o centro do universo das pessoas que mais deveriam amá-lo... E amam, mas também precisam de outros amores complementares. Acredito que seja difícil a um adolescente compreender a amplitude de emoções que um adulto precisa preencher para tentar ser feliz.


            A separação física é mais evidente, no entanto, não mais prejudicial que a separação invisível que assola os nossos adolescentes. Há conosco uma menina cujos pais são casados, moram juntos, mas somente a mãe vai à igreja, o pai é um popular ogro. O fato de um casal não professar a mesma fé já é uma fissura que pode causar um dilema ao adolescente em formação quanto a quem seguir, no entanto, a questão religiosa é apenas um exemplo, uma partícula que pode ser bem administrada se houver equilíbrio; voltando à menina... Ela tem ódio do pai, que xinga a mulher/mãe – há rumores até de agressão física. A menina tem ódio da mãe, que não reage, que não a protege da humilhação a que o pai as expõe, ou seja, a separação existe, só que com os corpos habitando a mesma casa.

Enfim, resumindo, qualquer que seja a separação entre o casal, a sensação que os filhos têm é de que faltou amor por eles.

Aos pais, não importa que o relacionamento com o ex seja péssimo, nem o quanto os atuais parceiros te incomodem, não deixe de cumprir com seus deveres, muito menos abra mão dos seus direitos, é um direito do seu filho, te amar e sentir o seu amor. Ainda que o ex queira interferir negativamente, lute! Respeite a incompreensão do adolescente, mas nunca deixe de dizer que o ama. Converse, faça-o refletir sobre o que faria se fosse você, troque de lugar com ele através do diálogo Se houver respeito e sensatez neste processo, quando seus filhos forem adultos compreenderão o que passou, sararão a ferida e como futuro teremos uma sociedade saudável.

No mais, o que estiver ao meu alcance, farei!

Lauraine Santos.
Rio Bonito, 29 de agosto de 2012.



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