sábado, 12 de janeiro de 2008

Ano novo - novela velha!!

Por acaso, justamente neste inicio de ano, parei para assistir novela. Escolhi o horário nobre, não quis ver o noticiário, por pensar que a realidade anda muito violenta e miserável para querer ter ciência dela. Sendo assim, esperei começar a ficção.
Ajeitei-me no sofá quando começou “Duas Caras”, minha tristeza foi ver a arte imitando a vida.
Fiquei imaginando quantas famílias havia, além da minha, trazendo, puxando, para dentro de suas casas, o desespero e a desgraça dos quais tanto fugimos, aos quais tanto tememos e aos quais tantas campanhas fazemos contra. Lutamos contra a violência, e, no entanto, aceitamos que a ficção nos faça *presenciar, *viver e *sentir o medo ao qual de forma clara repugnamos.
*O objetivo da ficção, do artista, é, sempre, fazer com que o seu telespectador, leitor, etc. sinta o que querem que sintam. O artista age, o receptor reage, e se dá uma perfeita sintonia de “ação + reação = relação”. Concluindo, o objetivo da ação do artista é causar reação. Porém, não quero me estender pelas trilhas da arte, nem pelos conceitos “stanislaviskianos”. Voltando ao assunto...
O tiroteio rolou solto, Juvenal Antena sobreviveu, o vilão Marconi Ferraço também; morreram os atores menos importantes da trama, a novela continua, e como na vida real... os figurantes nem aparecem!
Além do tiroteio que é realidade na vida quotidiana de muita gente, tivemos uma medíocre e ridícula representação das diversas reações de cada personagem diante da situação apresentada, a começar pelas classes sociais bem mixtas: a ricaça e um deputado estavam na Favelinha. A aparvalhada ricaça teve coragem de socorrer alguém no meio do fogo cruzado, e a piada, o deputado deve estar em campanha, porque em nenhuma outra hipótese um político vai prestigiar a festa em comunidade pobre, muito menos em favela.
Agora a parte religiosa! Ainda faltam estes detalhes. Estamos aceitando os desbaratinados líderes religiosos até na ficção. A mãe de santo foi muito bem interpretada, apesar de ter morrido em um momento não mais assustador do que uma sessão de terreiro.
O homossexual, devoto de Iemanjá, de São Jorge, Santo Antonio, Santa bárbara, etc... Que representa muito bem o sincretismo religioso entre o catolicismo e o candomblé, foi justamente quem deu uma de macho para defender uma amiga ex drogada.
Enquanto o pastor e seus fiéis mantinham-se dentro do Sagrado Templo sem procurar socorrer ninguém, pelo contrário, estavam histéricos e inconsoláveis. Além da crítica a obra, devo também falar quanto a atuação desses artistas, que, ou nunca entraram em uma igreja protestante nem para fazer laboratório, ou, se submeteram a prestar papéis tão imbecis e mal desenvolvidos como os que estão se apresentando.
A consagrada filha do pastor interpreta uma atitude insana- fanática- patológica, ao invés de demonstrar fé, fique claro que fé e fanatismo são coisas bem distintas; fanatismo é doença, fé não! Uma reação desconsolante foi a do pastor, que, sem demonstrar o menos temor, julgou-se superior a Deus, no direito de questiona-lo, pois, se o próprio Deus enviou seu Filho amado Jesus, sem pecados, para morrer por uma humanidade desmerecedora, por que a filha do pastor, pecadora hipócrita não poderia ter morrido? (pois na crença do pastor – Cristão, o Cristo Filho foi enviado pelo Deus Pai para morrer pela humanidade). Então, por que tanta revolta? O que vimos foi um pastor incapaz de pastorear gados, e muito menos ovelhas, que são tidas como animais de menor inteligência.
Estou gratuitamente fazendo propaganda da novela, mas, infelizmente, meu objetivo não é esse! Infelizmente não tenho vocação para a área de marqueting, antes fosse, eu ficaria feliz em ter esse dom! só que meu cérebro funciona melhor na área da filosofia, do questionamento, e posso assim, melhor expor meu pensamento:
1º - não adianta somente falar contra a violência. A população que em muito fala e em nada age é tão demagoga quanto os políticos aos quais elege.
2º - líder é quem sabe a hora de recuar antes de ter seus soldados feridos.
3º - religião não faz ninguém melhor ou pior.
4º - o protestantismo covarde que foi exposto na novela existe só mesmo na ficção, porque se trouxermos Martinho Lutero a memória, veremos que a história não é bem assim. * apesar de sabermos que péssimos líderes existem em qualquer classe.
5º - o lugar onde buscariam abrigo seria em alguma igreja, Católica ou Protestante, porém isso não ficou nem subentendido. /ambas devem estar mal no cartaz com a comunidade/.
6º - é hora de pensar:
O QUE ESTAMOS TRAZENDO APARA DENTRO DAS NOSSAS CASAS?!

Parabenizo ao autor da obra por tratar tão corajosamente de assuntos tão polêmicos, como corrupção, impunidade, discriminação, preconceito, etc, mas de que adianta o povo se alimentar disso e não conseguir, não ter iniciativa para digerir e lutar contra!? É apenas um alimento não saudável e altamente destrutivo.
Meu objetivo não é somente criticar a obra, mas sim, fazer pensar sobre os benefícios ou malefícios que esta “distração” tem nos trazido.
Porque quando a arte atinge seu objetivo, de nos indignar, de nos fazer sorrir ou chorar, devemos também reagir, interagir, lutar contra os problemas que se apresentam na realidade e se repetem na arte. Devemos interagir com a sociedade na qual estamos inclusos.
Por isso que eu, como seu que só sei questionar, prefiro assistir ao ultimo capítulo das novelas, que é quando tudo se resolve. Todo início de ano deveria ter ultimo capitulo de novela, só assim não seria tão em vão todo o ritual do reveillon. Bastaria termos findado o ano anterior com boas sementes plantadas.

“Quem faz boa cama, nela se deita!” .

Um Feliz 2008 a todos.

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